Friday, August 01, 2008

- Eu? Eu sou apenas um colecionador. - Ele a segurou pelo queixo, forçando o rosto dela para cima, encarando-a firmemente. ? Não me interessa exatamente se você está viva ou morta. De uma maneira ou de outra... ? O sorriso tornou-se mais frio. ? Eu sempre posso adicionar você à minha coleção.

Os olhos dela dardejaram de ódio, ainda que ela não se mexesse. O homem riu alto, cinicamente.

- Há menos de cinco minutos você parecia prestes a cair em prantos. Agora, se pudesse, estaria explodindo minha cabeça. Gosto disso, feiticeira. Acho que será divertido tê-la por perto agora que você vai se tornar uma peça da minha coleção.

Essa foi a gota d?água que Maho precisava para esquecer todo seu precário auto-controle e, intempestivamente, morder a mão que ele ainda mantinha em seu rosto, abaixando-se quando ele a largou e girando rapidamente para aplicar uma cotovelada na altura do estômago dele, começando a correr em seguida.

Por alguns instantes, ela pensou que conseguiria escapar... Que o machucara o suficiente para que tivesse tempo de se afastar.

Maho não demorou a descobrir que estava errada.

Violentamente, o corpo da menina foi jogado contra o chão, quicando duas vezes antes de sair arrastando dezenas de metros pelo cascalho. As costas queimavam onde ela fora atingida pelo feitiço que ele lançara. Com esforço, Maho se virou, deixando-se ficar deitada de barriga para cima, sentindo o sangue empapando sua roupa, as pálpebras inchadas impedindo sua visão.

O maldito demônio continuava na mesma posição, sorrindo de forma que ela só podia classificar como doentia, a mão com a palma levantada em sua direção.

- O primeiro foi apenas uma advertência, feiticeira. Eu não garanto que você sobreviva ao próximo.

Testando os braços ? que, miraculosamente, não tinham quebrado ? ela apoiou meio corpo, cuspindo de lado o sangue que se acumulara em sua boca. Para sua surpresa, junto vieram dois dentes. A garota passou a língua pela gengiva machucada, sentindo pontadas de dor com o contato.

- Eu espero que isso seja um dente de leite. ? Ela observou com a língua enrolada, ainda tonta pelo impacto. ? Não acho que uma peça quebrada tenha muito valor para sua coleção. Agora, por que você não vai caçar borboletas e me deixa em paz?

Ele meneou a cabeça, o sorriso nunca deixando sua face.

- Você está realmente precisando aprender quando deve ou não falar, não é verdade? Precisa aprender a se portar, feiticeira, especialmente na presença de seus superiores.

Maho não tinha certeza se piscara ou não, mas, em um momento, ele estava quase do outro lado do parque e, no segundo seguinte, estava diante dela, as mãos em seu pescoço, ao mesmo tempo em que a levantava do chão.

Ela tentou se debater, sentindo-o apertar sua garganta com mais força, os dedos frios e ásperos dele queimando sua pele. Ela gritaria se pudesse, mas até respirar estava se tornando difícil e não demoraria muito mais para que ela perdesse a consciência.

- Solte-a agora, Souryo.

Maho tentou abrir as pálpebras machucadas o máximo que podia para enxergar o recém-chegado ? ainda que a voz tivesse sido suficiente para saber que era Toyoharu-sensei.

Ela soltou um gemido de dor quando o demônio a largou, deixando-a cair molemente no chão, dando-lhe as costas para encarar o mestre do templo, o sorriso tornando-se mais malicioso e insinuante.

- Ora, ora, ora... Vejam o que temos aqui... Uma reunião de família! Faz mais de cinqüenta anos que não nos encontramos, Seiryoku.

No chão, incapaz de se mover, Maho escutava atentamente as palavras do Colecionador. Ele conhecia o monge? Não fazia sentido. Toyoharu-sensei não chegara nem aos quarenta anos ainda... Como poderia fazer cinqüenta anos que eles não se viam? E o que significava exatamente aquele ?reunião de família??

- Você não parece ter mudado em nada, Souryo. ? O monge respondeu, tristemente.

- Você também não, o que só torna as coisas mais divertidas, já que, em vez de um, hoje vou coletar duas peças para minha coleção, certo, oniisan?

Toyoharu Seiryoku, o monge calmo e gentil do templo, o professor paciente, a figura quase paterna... irmão de um... demônio? Maho mordeu os lábios enquanto tentava se virar para ver a cena que se passava diante de seus olhos, sentindo o sangue escorrer pelos cantos da boca.

Os dois homens estavam um diante do outro, figuras completamente opostas à outra. Como eles poderiam ser irmãos? Eles não podiam... Toyoharu-sensei não podia... Ele não a trairia daquela maneira...

Nee, Maho-chan... Vamos aprender juntos, certo? Eu vou levar você para o templo e tenho certeza que vai ficar tudo bem com você depois que você aprender a lidar com seus poderes.

Ele não podia ter feito isso. Primeiro Tetsuya... Agora o mestre... Quem seria o próximo?

Aqui, Maho-chan. Dobre as pontas do origami assim. Quando terminar, concentre-se no sopro que dará vida a ele. Pela natureza de seus poderes, mais que um mensageiro, o tsuru poderá ser seus olhos e ouvidos. Ajudará você a se proteger melhor.

Inconscientemente, ela chorara antes por conta da dor,. O sangue, que a essa altura já quase se coagulara, confundia-se com as lágrimas.Agora, quando um único fio escorria dos olhos de safira, ela estava dolorosamente consciente do que estava acontecendo.

As pessoas nunca vão realmente entender o que você sente se não falar claramente, Maho-chan. Elas nunca vão saber o quanto você se importa ou o quanto cuida delas se agir como se nada no mundo lhe dissesse respeito.

Souryo foi quem tomou a frente, pegando impulso para pular sobre o irmão, que apenas se desviou, enquanto levava uma das mãos à frente do quimono que usava. Maho assistiu praticamente em câmera lenta enquanto o demônio aproximava-se do monge e este girava o corpo, revelando então entre seus dedos um selo de papel.

Se você usar esses selos nos quatro pontos cardeais da casa, ela se tornará um lugar seguro... uma kekkai. Aqui e no templo... nada poderá alcançar você.

No momento em que o selo tocou a fronte de Souryo, ele se imobilizou em pleno ar, o corpo perdendo brilho, a pele começando a se esfarelar, como se ele não fosse mais que uma estátua de areia.

Um vento forte começou a soprar, levando embora qualquer resquício da presença de outra criatura no parque. Maho observou o monge aprumar-se. O selo, agora em branco ? uma simples tira de papel ? caía lentamente no chão, transformando-se em cinzas.

Foi só então que ele se voltou para ela. Maho respirou fundo, tentando se concentrar, tentando desesperadamente arranjar forças para se levantar, para se defender.

Ele deu um passo na direção dela e imediatamente ela sentiu o corpo reagir.

- FIQUE LONGE DE MIM!

Toyoharu parou por um segundo, observando-a como se estivesse ferido, mas logo essa impressão desapareceu e ele voltou a se encaminhar para ela, dessa vez mais decidido.

- Eu sinto muito, Maho-chan, mas não posso permitir que você guarde lembranças disso. ? Ele se desculpou, parando junto a ela e se ajoelhando.

- Afaste-se agora! ? ela ordenou ? Fredéric, Clarice!

- Eles não virão... Não enquanto eu não tirar a barreira sobre o parque. ? Ele respondeu, estendendo dois dedos até tocar a testa dela. Maho tentou se apartar, mas descobriu que não conseguia mais se mexer. ? Você não se lembrará de nada a partir do ponto em que cheguei aqui.

Ela sentiu mais lágrimas escorrerem por seu rosto enquanto os olhos dele se dilatavam, as pupilas desaparecendo no branco dos olhos. Por alguns instantes, eles permaneceram nessa posição, uma aura prateada cobrindo o corpo de ambos, até que ele a liberasse do feitiço.

O corpo de Maho tombou suavemente para os braços dele, já completamente inconsciente.

Começou a chover.

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